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A missão da Universidade em tempos de crise
Por Klaus Capelle, Hélio Waldman, Adalberto Fazzio,Luiz Bevilacqua, Hermano Tavares

Data: 08/08/2017

Os cinco reitores da UFABC, de 2005 até hoje, escrevem para o Jornal da Ciência: “Diferentes opiniões políticas no cenário nacional ou institucional não devem impedir que as Universidades cumpram a sua missão de educar e de produzir conhecimento”


O Brasil está passando por uma das piores crises econômicas e políticas da sua história. Esta crise traz consequências que invadem os lares e as instituições brasileiras, onde deixam sequelas que vão muito além das econômicas.

Os danos imediatos da crise econômico-financeira para a educação superior e a ciência e tecnologia do Brasil são severos e podem atrasar o desenvolvimento do País – inclusive seu desenvolvimento econômico – por muitos anos. Cortes na educação e na ciência podem, no curtíssimo prazo, levar a alguma economia de recursos, mas ao mesmo tempo secam as sementes de uma futura recuperação mais duradoura e vigorosa.

Essa perspectiva é muito grave. Em paralelo, outra ameaça às instituições brasileiras, menos óbvia que a econômica e no mínimo igualmente nociva, está em curso: a degradação crescente das relações humanas na sociedade, onde a substituição do diálogo pelo ódio ameaça deixar sequelas que permanecerão mesmo após a futura superação da crise econômico-financeira.

Um fator agravante, não presente em crises anteriores dessa magnitude, é dado pelas mídias sociais que amplificam as manifestações de ódio e intolerância, seja pela replicação seletiva de apenas um ponto de vista, seja pelo quase anonimato da comunicação eletrônica, aumentando ainda mais as barreiras para o diálogo e para a busca de soluções construtivas.

A crise das relações humanas se manifesta inclusive e especialmente no seio da comunidade acadêmica. Em períodos de crise, é fundamental que as Universidades se mantenham fieis à sua missão, servindo de refúgio ao pensamento crítico, sem permitir que ele seja sufocado pelo alarido das redes sociais nem pelos monólogos e imprecações das facções em conflito na luta pelo poder. A Universidade não é trincheira ideológica e político-partidária. Tampouco é um abrigo para se expressar opiniões pessoais ou mesmo coletivas sem fundamento científico.

Na UFABC, instituição pela qual tivemos ou ainda temos responsabilidade como dirigente máximo, assim como em muitas outras Universidades, o clima de confronto social encontra terreno livre para se estabelecer, por serem espaços socialmente abertos e ambientes incentivadores do contraditório, como devem ser. Assim, as Universidades podem servir como sistema de alerta precoce para detectar ameaças à sociedade como um todo.

Durante a ditadura militar, algumas Universidades brasileiras tiveram um papel de refúgio para o pensamento crítico, que se encontrava interditado nos meios de expressão da sociedade civil, tais como a imprensa, a arte e a literatura. A importância desse papel ficou evidente no período da redemocratização, pois a Democracia não pode prosperar sem a prática da reflexão apoiada no diálogo racional entre cidadãos. Durante toda a história da civilização, Universidade e Democracia têm evoluído em conjunto, uma instituição dando impulsos e sustentação à outra, construindo assim um conjunto de valores acadêmicos, humanos e civilizatórios.

Os valores acadêmicos incluem as liberdades para pensar, falar, ensinar e pesquisar, a tolerância com quem usa essas mesmas liberdades para obter e divulgar conclusões diferentes, a colaboração e confiança mútua além das barreiras físicas e mentais, a apreciação pelo conhecimento científico, e a prevalência do mérito sobre o corporativismo e da excelência sobre a conveniência. Com base nesses valores construiu-se, em um processo que levou centenas de anos, o conhecimento humano que sustenta a sociedade moderna.

Diferentes opiniões políticas no cenário nacional ou institucional não devem impedir que as Universidades cumpram a sua missão de educar e de produzir conhecimento. A tolerância, o diálogo racional e o investimento em ciência e educação são garantias de um futuro melhor, nas universidades, no Brasil e no mundo.

Klaus Capelle é reitor da UFABC desde 2014
Hélio Waldman foi reitor da UFABC de 2010 a 2014
Adalberto Fazzio foi reitor da UFABC de 2008 a 2010
Luiz Bevilacqua foi reitor da UFABC de 2007 a 2008
Hermano Tavares foi reitor da UFABC de 2005 a 2007.

Artigo publicado originalmente no JC notícias.


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