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  03/10/2023


Alta da evasão e queda no ingresso: crise na Ufam tem raízes sociais, políticas e econômicas



 

 

Daisy Melo

 

“Tenho um limite disponível de R$ 100 para gastar com a universidade por mês, para RU [Restaurante Universitário] e passe [passagem de ônibus], mas acaba que, no final do mês, sempre falta alguma coisa. Aí, quando eu tenho aula toda semana durante o mês, têm situações que eu tenho que escolher qual aula eu vou participar”.

 

Esse é o relato do estudante Moisés Simão, 21 anos, do 5º período do curso de História da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Assim como ele, muitos(as) outros(as) têm dificuldades de se manter financeiramente e até acabam abandonando os estudos.

 

É o que mostra a Taxa de Desistência Acumulada (TDA) da Ufam de 48% e a Taxa de Permanência (TP) de 4%. Esses índices consideram o fluxo de estudantes (ingressos, matrículas, conclusões e desvinculamentos) e 2012 como ano de ingresso. Os dados são de 2021 do Censo da Educação Superior, divulgados em novembro de 2022 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

 

A universidade enfrenta ainda uma outra crise: a expressiva queda de ingressantes. A quantidade de calouras(os) caiu quase pela metade de 2010 para 2021. Apenas 2.925 pessoas iniciaram os estudos na Ufam em 2021, o que representa 46,7% a menos em comparação a 2010.

 

 

 

A redução de ingressantes associada ao aumento da evasão valida a “sensação” de esvaziamento. Professoras(es) com anos de atuação relatam perceber as salas com menos alunas(os) e refletem sobre o que poderia estar ocasionando e ser feito para mudar a realidade que é, segundo dados oficiais, uma tendência nacional. Para integrantes da comunidade acadêmica da Ufam ouvidas(os) pela ADUA, esse panorama é resultado de uma combinação de fatores sociais, econômicos e políticos. 

 

“Tem a ver com desemprego, baixos salários, necessidade de os jovens ajudarem suas famílias, ou eles mesmos se casam, têm filhos e precisam conciliar casa, trabalho e universidade. É difícil, especialmente quando se está em uma sociedade com nível de desemprego alto, com trabalhos precarizados e que, para a pessoa se sustentar, às vezes, tem que arrumar diversos trabalhos, e isso acaba interferindo na dedicação à universidade”, analisa o professor do curso de Pedagogia da Ufam e presidente da ADUA, Jacob Paiva.

 

Essa realidade socioeconômica das(os) estudantes precisa nortear as decisões administrativas da universidade, garantindo políticas de permanência que vão além do RU, na opinião da presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e aluna do 9º período do curso de Pedagogia, Rita Vieira. “Precisamos pensar de forma ampla como, por exemplo, a construção de uma creche, a criação de cursos noturnos em unidades em que exista essa demanda. A universidade precisa possibilitar que o filho do trabalhador tenha um horário para trabalhar. A fome dói e dói agora, não espera que o estudante se forme”.

 

Valorização do corpo técnico

 

Para Paiva, a conjuntura é também reflexo dos sucessivos cortes nos orçamentos das universidades, assim como a questão salarial de professores(as) e Técnico-administrativas(os) em Educação (TAEs). Essa desvalorização do corpo técnico é levantada pela professora da Faculdade de Psicologia da Ufam, Ana Cristina Martins, que percebeu a queda de discentes após retornar do doutorado em 2010. Ela chama a atenção que a Ufam ampliou o número de cursos e estudantes, mas não o de docentes e técnicas(os).

 

“Há deficiência de recursos humanos considerando as atividades de ensino, pesquisa, extensão e administração”. Neste aspecto, a docente defende a valorização da carreira docente e das(os) TAEs com melhoria salarial e aumento de vagas para concurso público para além de substituições por morte ou aposentadoria.

 

Outros campi da Ufam sentem o esvaziamento, além de Manaus. É o caso do Instituto de Natureza e Cultural (INC), de Benjamin Constant. Lá, a diminuição de estudantes foi sentida antes da pandemia da covid-19. “Foi fortemente perceptível a partir de 2018, 2019, mas antes disso já vinha acontecendo, e se agravou com a pandemia. Em 2022, com a retomada das aulas presenciais, se tornou mais evidente”, relatou o docente do curso de Letras, Solano Guerreiro, acrescentando que colegas que atuam em institutos federais identificam o problema. “Turmas que antes ingressavam 30, 40 alunos, agora tem 10, 15 alunos, até menos”.

 

 

Na opinião de Guerreiro, a questão está relacionada ao desmonte da Educação Pública, aos cortes de recursos para o Ensino Superior e para as instituições de pesquisa, e ao discurso de descrédito dessas entidades e da docência proferido incessantemente pelo último governo (2019-2022). Por essa razão, o professor avalia a necessidade de uma campanha de valorização das instituições e suas(seus) profissionais, que abranja destinação de recursos para a Educação e divulgação dos programas das instituições de ensino, pesquisa e fomento.

 

Avaliação similar faz o coordenador-geral do Sintesam, Diego Squinello. Para ele, o ataque à ciência e à universidade, praticado pela extrema direita no Brasil, diminuiu o prestígio social da universidade. “O governo passado também congelou o auxílio permanência, essa questão afetou a população mais carente que conseguiu ter o acesso universitário, mas não se manter”.

 

Para Solano, mais um ponto fundamental é garantir às(aos) jovens perspectivas de ascensão profissional pelos estudos. “Ter a perspectiva que, caso tenha interesse, o estudante possa dar continuidade aos seus estudos em programas de pós-graduação incentivados por bolsas, que não terá obstáculos em termos de estrutura e financiamento para desenvolver sua pesquisa”.

 

No Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ), em Parintins, a “fuga” de estudantes foi sentida pelo professor do curso de Educação Física, Marcelo Radicchi, no período mais crítico da pandemia (2020 e 2021) e após a retomada das aulas (2022). “Muitos alunos falavam que não queriam fazer na modalidade remota, tivemos turmas com pouquíssimos alunos, agora estou com uma turma de calouros quase completa, chegaram muitos da segunda chamada do Sisu”.

 

O afrouxamento das avaliações do Ministério da Educação (MEC) após o golpe à presidente Dilma Roussef, em 2016, colaborou para a retração no ingresso de estudantes na universidade, na avaliação de Radicchi. De lá para cá, Parintins tem vivenciado a abertura de instituições privadas. “A gente vê uma explosão de faculdades particulares que têm mais facilidade de abrir cursos, são mais ágeis, oferecem, por exemplo, bacharelado, que nós [ICSEZ] não oferecemos, muitos alunos têm procurado as faculdades particulares, porque elas se adaptam ao tempo deles”.

 

A política educacional do governo Lula (2003-2011), que teve como destaque o Programa Universidade Para Todos (Prouni), criou o ambiente propício para a atual conjuntura, na opinião de Squinello. “Mudou a concepção do povo sobre a universidade, se popularizou pelo modelo privado, que é baseado em obter diploma da maneira rápida, e não pela rede pública, onde se vive a universidade e desenvolve competências transversais”. 

 

 

 

Assim como Solano Guerreiro, Radicchi aponta a necessidade da valorização da universidade, que oferta ensino, extensão e pesquisa. “A [faculdade] particular basicamente só tem o ensino e olhe lá, acho que é preciso valorizar o fator social da universidade pública, o governo precisa retomar as avaliações de maneira séria, especialmente nas particulares, porque a gente é avaliado de uma maneira rigorosa”.

 

Caso UEA

 

Na Universidade do Estado do Amazonas (UEA) a situação é similar à Ufam. O número de ingressantes despencou 60,2% de 2015 para 2021. Segundo o Inep, foram registradas(os) 2.337 calouras(os) em 2021 contra 6.092 em 2015. A título de comparação, a UEA chegou a ter 6.642 estudantes iniciantes em 2012, o maior registro do período de 2010 a 2021. Em termos de evasão, a instituição registrou TDA de 42% e TP de 2% em 2021.

 

Na avaliação da professora da Faculdade de Pedagogia da UEA, Ceane Simões, que atua desde 2010 na instituição, para identificar quais estratégias adotar é preciso levantar com atenção o que está ocorrendo na oferta de vagas e analisar a política de permanência estudantil. “Se for mantido os patamares e com a mesma concepção, essa política não dará conta de garantir a presença dos estudantes em atividades acadêmicas sistemáticas”, frisa.

 

Assistência estudantil e saúde mental

 

Mais recursos para políticas de assistência estudantil, considerando o alto número de estudantes em vulnerabilidade, é também a aposta de Ana Cristina Martins. “Maiores investimentos para as universidades públicas federais com ênfase para política de assistência estudantil, manutenção e renovação de equipamentos e criação de políticas institucionais para a saúde mental (...) O adoecimento psíquico também é um fator relevante que tem afetado a comunidade acadêmica”, afirma a professora de Psicologia da Ufam.

 

É o que confirma Moisés Simão em seu relato. “Continuo nessa questão de insegurança de não saber se no próximo período terei condições financeiras de continuar estudando. Falo, inclusive, na questão mental, porque é muito desgastante ficar todo mês pensando se terei dinheiro”, disse o aluno da Ufam que veio de Tonantins para Manaus, onde hoje vive com a irmã, também estudante, em uma casa alugada e mantida pela família que mora no interior do estado.

 

O estudante de História até que tentou obter auxílio, mas teve o pedido negado. Moisés enxerga a universidade como uma instituição “fechada” que não consegue atender às(aos) alunas(os) em situação de vulnerabilidade social como ele e que oferta bolsas, mas que não abarcam a todas(os) que precisam.

 

“Tenho amigos que se encontram na mesma situação, vejo isso como uma reivindicação, é uma oportunidade da faculdade pensar por que tantos alunos estão saindo e ver políticas mais inclusivas, porque se a universidade é pública, como que a população não tá podendo continuar estudando? Como que as populações mais pobres ou em situação de vulnerabilidade não podem acessar esse espaço público?”.

 

Para uma estudante finalista do curso de Ciências Biológicas da Ufam, que preferiu não se identificar, falta interesse da universidade em manter as(os) discentes. “Muitos alunos não têm uma rede de apoio: pai, mãe, casa, transporte e internet. É possível ver que a própria universidade não demonstra interesse em manter quem almeja o diploma, que quem está na universidade é quem pode e não mais quem quer”.

 

 

Como os auxílios não chegam a todas(os), muitas(os) estudantes sem assistência pensam em trancar o curso, segundo a presidente do DCE. “Há alunos com grandes dificuldades sem recursos para o tíquete do RU, são questões de vulnerabilidade socioeconômica, mas também de ‘INsegurança’, saúde mental ou violência sexista e sexual. Não serei ingênua de culpar somente os governos anteriores, mas tem um problema de gestão por trás disso”.

 

Questionada sobre a questão e quais as ações estão em curso ou em elaboração para a reversão do problema, A Pró-Reitoria de Graduação (Proeg) da Ufam não respondeu até o fechamento desta matéria.

 

Gestão de recursos

 

A transparência institucional na aplicação dos investimentos públicos e no acesso aos dados de desempenho, com a abertura de espaços democráticos para discussão das prioridades da universidade, é levantada por Ceane Simões. A docente da UEA cita a necessidade da ampliação maciça de investimentos para a melhoria dos cursos ofertados, de uma permanência com qualidade e da melhoria das condições de trabalho.

 

“Há que acontecer análises e discussões amplas para que isso se instaure no ambiente acadêmico como fator preponderante de enfrentamento aos desafios da instituição. Se a universidade não se populariza e democratiza e cada vez mais verticaliza suas decisões, certamente o enfrentamento dos seus problemas concretos estará longe de acontecer”, pondera.

 

 

Crise nacional

 

Evidenciando não ser esse um problema local, mas nacional, docentes de diferentes universidades relataram situações semelhantes à exposta pelo professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Pierre Lucena, em um tuíte de 13 de junho deste ano. A postagem viralizou ao mostrar em um vídeo o espaço do Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA) com a seguinte legenda: “Já estava percebendo um certo esvaziamento na UFPE, mas ontem realmente fiquei muito preocupado. O CSSA, onde dou aula há 27 anos, sempre foi lotado no turno da noite. Às 19 horas fiz estas imagens... não tinha quase ninguém”.   

 

O tuíte recebeu comentários de docentes de instituições como Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), das Universidades Federais de Santa Catarina (UFSC), da Bahia (UFBA) e do Acre (Ufac), que endossaram a preocupação. Conforme o último Censo da Educação Superior, de 2019 a 2021, o número de ingressantes diminuiu em outras partes do país, além da Ufam (41,3%) e da UEA (33,7%). Para citar alguns exemplos, a queda nesse período foi de 9,0% na UEPB; 24,6% na UFSC; 6,6% na UFBA; 25,9% na Ufac; 16,9% na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e 33,2% na Universidade de Brasília (UnB).

 

 Pandemia

 

Considerando a pandemia da covid-19, a professora do Departamento de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Nazira Camely, acredita que o esvaziamento das universidades tem relação direta com o aprofundamento da crise econômica vivenciada de forma intensa pelas(os) mais pobres. “Um conjunto de estudantes perdeu seus provedores econômicos, estudos revelam que há mais de 135 mil órfãos econômicos, um número enorme de estudantes passou por esse processo, em que seus pais perderam o emprego e eles tiveram que ir para o mercado de trabalho”, disse em entrevista à ADUA.

 

Para a docente da UFF, a pandemia afetou negativamente a formação das(os) estudantes e não houve das universidades, segundo ela, uma resposta a esse “pós-guerra”. “Precisamos urgente de uma ação política que requer um diagnóstico desse quadro e uma ação do nosso Sindicato na direção de diminuir essa evasão”, afirma, acrescentando a necessidade do aumento de recursos para bolsas permanência e assistência estudantil, da extensão dos RUs e da oferta de cursos noturnos.

 

 

A pandemia facilitou ainda a inserção do Ensino a Distância (EaD) nas universidades que tiveram que aderir ao Ensino Remoto Emergencial (ERE) para a atender às recomendações sanitárias, mas a oferta de aulas nesta opção acabou ficando como uma questionável herança.

 

Camely avalia que uma das questões a serem consideradas nesse panorama e que passam sobre a chancela do governo federal é a manutenção das aulas híbridas por meio de portarias, assim como a falta de recursos para as universidades, que vêm sofrendo nos últimos anos com cortes no orçamento, sendo o último de R$ 333 milhões feito agora em 2023 pelo governo Lula.

 

Migração para o EaD 

 

A atual tendência de preferência da modalidade EaD tem colaborado para o esvaziamento das universidades públicas, uma vez que os cursos nesse formato estão concentrados quase em sua totalidade em faculdades privadas. Somente no Amazonas, em 2021, 58,9% das calouras (os) de Instituições de Ensino Superior (IES) do Estado ingressaram na modalidade EaD. Neste mesmo ano, se registrou uma queda de 21% de ingressantes no presencial, e um aumento de 21,3% no EaD, sendo a maior parcela (20,7%) nas instituições particulares, conforme o 13º Mapa do Ensino Superior do Brasil, baseado em dados do Inep e lançado em 20 de junho deste ano.

 

Considerando o período de 2017 a 2021, o menor número de ingressantes (5.763) nos cursos presenciais das IES da rede pública do Amazonas ocorreu em 2021. Para se ter ideia da brusca queda de calouras(os) nas universidades públicas do Estado, 11.711 pessoas ingressaram nestas instituições em 2018. Em termos de matrículas, os cursos EaD no Amazonas apresentaram crescente de 2011 até 2021, saltando de 11.307 para 56.543.

 

Os números apontam uma crescente migração de estudantes para o EaD não apenas no Estado, mas no país. Ainda conforme o Mapa, após retração de 9,4% nas matrículas em 2020, os cursos presenciais das IES brasileiras perderam mais 5,5% de matrículas em 2021. Em contrapartida, as matrículas de cursos EaD tiveram alta de 26,8%, em 2020, e 19,7%, no ano seguinte.

 

Em 2021, com o impacto da pandemia, o número de ingressantes no EaD aumentou 23,3% no país. Em 2020, a alta tinha sido de 26,2%. Na rede privada, esse crescimento foi de 24,2%, com concentração de 98,3% das(os) ingressantes. No caso da rede pública, a alta de matrículas no EaD no país foi de 9,4%, após anos de estabilidade. De 2015 a 2021, o aumento de estudantes na modalidade chegou a 167%.

 

“Depois de sermos pegos de surpresa por uma pandemia em 2020, que afetou diretamente a educação superior, o setor seguiu sendo impactado pela crise sanitária em 2021. Ainda que parte dos cursos de IES tenha retomado as aulas presenciais, o ensino remoto continuou presente e predominante, entrando definitivamente na rotina de estudantes e docentes”, afirma o Mapa do Ensino Superior do Brasil.

 

Bruno de Alcântara, 24 anos, entra nas estatísticas. O estudante abandonou, no primeiro semestre deste ano, o curso de Farmácia na Ufam e aderiu ao Ensino a Distância. “Tive dificuldades financeiras e não obtive bolsas para me auxiliar na permanência na universidade, por esse motivo optei por fazer uma graduação EaD, e fazer o concurso da Polícia Militar”.

 

A longa distância entre casa e universidade - o jovem mora no bairro Nova Cidade, na zona norte de Manaus - e a falta de auxílio estudantil fizeram Bruno deixar o curso. “Era uma rotina muito desgastante principalmente pela lotação no transporte urbano”. Para ele, a assistência a estudantes de baixa renda é um dos caminhos para solucionar o problema da desistência.

 

Contrarreformas  

 

Um fator determinante para a expansão do EaD nos últimos anos foi a instituição de contrarreformas neoliberais que mudaram as regras da modalidade. A legislação foi alterada com as Portarias nº 1.428/2018, de Michel Temer, e nº 2.117/2019, de Jair Bolsonaro. “Essas duas recentes políticas representaram talvez o mais avançado ataque à organização, funcionamento e natureza da educação pública superior brasileira”, afirma o ANDES-SN na cartilha “Projeto do Capital para a Educação: Análise e Ações para a Luta – Volume 3”.

 

Até 2017, as IES apenas poderiam ofertar cursos nesse formato se oferecessem a opção equivalente no presencial, e eram obrigadas a oferecer polos para que as(os) estudantes tivessem acesso a um laboratório de informática. Isso provocou uma profunda mudança no cenário da Educação no país. Em 2017, havia 1,3 milhão de vagas presenciais a mais do que EaD. Já em 2021, eram 10,7 milhões de vagas EaD a mais do que presenciais, aponta o Censo da Educação Superior. Em números totais, o Censo revela ainda a diferença brutal entre o total de vagas EaD (16.736.850) e presenciais (5.940.636) nas IES do Brasil.

 

É o EaD, portanto, que tem ditado a alta de ingressantes no Ensino Superior brasileiro. O Censo mostra que, de 2017 a 2021, o número de vagas EaD quadruplicou, saltando de 4,7 milhões para 16,7 milhões. Considerando o período de dez anos (2011 a 2021), os ingressos nas IES do país caíram 23,4% nos cursos de graduação presencial e dispararam nos cursos a distância, registrando aumento de 474%. Ou seja, a participação de ingressantes no EaD que era de 18,4% em 2011, saltou para 62,8% em 2021.

 

As motivações apontadas para a expansão do EaD são financeiras e de otimização do tempo, na opinião dos professores da UFPE, Pierre Lucena e Silvio Meira. No artigo “O fim do campus isolado: vai faltar aluno para tanta estrutura”, publicado em 22 de junho deste ano no portal Jornal Digital, os docentes argumentam que um curso a distância em uma faculdade particular custa entre R$ 400 e R$ 600 mensais, o que, segundo eles, é praticamente o equivalente ao que uma(um) universitária(o) gastaria para se deslocar para um campus. “É como se o aluno chegasse à conclusão de que pode ter o mesmo resultado sem o mesmo custo de investimento pessoal, em dinheiro e, principalmente, tempo”.

 

Sobre o EaD, Jacob Paiva comenta que, muitas vezes, as(os) estudantes têm abandonado a opção presencial e buscado o ensino a distância movido pela lógica de concluir rapidamente o curso e ter um diploma. “Pensam que vão ter uma solução mais rápida, um posto de trabalho mais qualificado, bem remunerado, o que, na maioria das vezes, não vai acontecer porque esses cursos possuem qualidade bastante limitada em comparação a uma preparação profissional social, cultural, ampla, profunda, integral”.

 

Presença na universidade 

 

A perda da “ambiência universitária” também é alvo de discussão. “É inegável que a universidade quando viva e diversificada de alunos, professores e outros agentes e espaço de aprendizado, convívio, pesquisa e produção de conhecimento tem um valor intrínseco. Contudo, se a universidade como instituição perder essa ‘ambiência universitária’, que se caracteriza pela interação humana próxima e pela troca de ideias, perderá seu sentido mais relevante”, advertem Meira e Lucena.

 

Sobre a necessidade da presença física da comunidade acadêmica para manter as universidades vivas, Camely, afirma que ensino, pesquisa e extensão dependem da interação social. “O que dá vida à universidade é a presença dos estudantes, dos professores, dos técnicos na sua dinâmica de aulas, de eventos, da vida social e científica”, diz.

 

Quebra ou esmagamento de expectativas?  

 

A quebra de expectativas das(os) estudantes em relação ao Ensino Superior é apontada como um dos motivos para o abandono dos cursos por algumas das pessoas que têm refletido sobre essa problemática.

 

Para Lucena e Meira, há uma profunda mudança na percepção das(os) jovens sobre o Ensino Superior e, além disso, a didática tradicional, embasada em aulas expositivas e unidirecionais não parece mais, segundo eles, sustentar o interesse das(os) estudantes. “Nota-se um desejo crescente por um aprendizado mais prático, que engaje e prepare de forma mais direta para os desafios que os alunos sabem que têm na sua vida pós-universidade. Cursos online com esse perfil têm ganhado um destaque cada vez maior, atraindo muitos dos alunos que optam por deixar os campi fisicamente isolados das universidades”, avaliam.

 

Argumento semelhante é usado pelo presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Marco Antonio Zago. Em entrevista publicada em 23 de março deste ano ao Jornal da Ciência, o professor aponta uma mudança de perspectiva das(os) jovens que, na opinião dele, estão menos dependentes das universidades para adquirir conhecimento e veem essas instituições como “atraso de vida”. Além disso, na visão do docente, o diploma universitário está “perdendo o valor de mercado”.

 

O presidente da Fapesp argumenta ainda que as universidades não estão acompanhando as rápidas mudanças tecnológicas e sociais. “As universidades precisam mudar suas abordagens de ensino radicalmente, saber que estão trabalhando com uma faixa e um conjunto de pessoas que pensam muito diferente do que nós pensávamos há 20 anos, que os cursos organizados nos moldes de 20 anos atrás não servem mais para essa juventude que está aí”, defende.

 

Numa outra perspectiva, considerando esse processo de “quebra das expectativas” das(os) jovens, ampliação do acesso à informação por meio das tecnologias e precoce inserção no mercado de trabalho, o professor da Faculdade de Ciências Sociais da Ufam, Marcelo Seráfico, levanta uma questão de natureza política que diz respeito ao papel da universidade pública e à formação de profissionais nessas instituições.

 

“Esses papéis têm a ver, prioritariamente, com a capacitação técnica de indivíduos de acordo com as demandas do mercado de trabalho? Ou essa capacitação deve estar acompanhada da competência crítica para compreender, inclusive, os limites das relações de troca no mercado como meio de satisfação das aspirações da juventude? Nenhuma dessas questões tem resposta simples”, afirma, acrescentando que justificar apenas como “quebra de expectativa” é uma simplificação que não dá conta de explicar a origem das expectativas das(os) jovens que, para o sociólogo, não se resumem à formação superior e aos entraves sociais, econômicos, políticos.

 

Na perspectiva de Seráfico, o “esvaziamento” do espaço físico das universidades está associado a outros esvaziamentos como da realização profissional das(os) jovens, cujas expectativas passam a ser moldadas como “funções do mercado”, e com a validação somente dos saberes valorizados pelo mercado. “Nessa perspectiva, a educação se torna um processo de ajustamento de corações e mentes àquelas competências demandadas por um mercado em constante mudança”, reflete.

 

Dessa maneira, o docente analisa que as expectativas das(os) jovens acabam sendo comprimidas entre as expectativas do mercado e as das universidades. “Nesse contexto de funcionalização pragmática da educação, as universidades se esvaziam de um ethos, de um conjunto de relações animadas pela crítica e pela criatividade, convertendo-se em centros de adestramento”. A reversão dessa situação depende, para Seráfico, de transformações que excedem políticas educacionais e envolvem reflexões e ações ligadas ao papel da educação para a construção de uma sociedade democrática, justa e orientada para o bem-estar coletivo.

 

Esse processo de trituração dos sonhos das(os) jovens se inicia desde muito cedo. “Todo o sistema de ensino participa desse ‘esmagamento’ de qualquer expectativa que não cabe na métrica das empresas, que demandam força de trabalho abundante, barata e bem adestrada, e da burocracia, ávida por estatísticas que revelem o volume do fracasso, pois é crescente o número de graduados que não atuam na área em que se formam ou cuja remuneração é insuficiente”, afirma Seráfico, concluindo que o esvaziamento aparece nas universidades como sintoma de um processo relacionado à dinâmica do mercado de trabalho e à precarização generalizada das relações trabalhistas.

 

Garantir ampla assistência estudantil; valorizar o corpo técnico e docente; oferecer orçamento público suficiente para a manutenção plena de todas as atividades; participar fisicamente das atividades dentro da universidade e recuperar o papel social dessas instituições de ensino como formadoras de cidadãs(ãos) críticas(os) e não como meras ferramentas do mercado de trabalho. São algumas das reflexões para diminuir a evasão, aumentar o número de ingressantes e, de maneira geral, resgatar o caráter das universidades como espaços pulsantes, participativos e catalisadores dos principais debates sociais. Complexa, a prática dessas estratégias depende em parte de ações de caráter pedagógico, mas sobretudo de políticas governamentais, o que evidencia a importância da permanência da luta de toda a sociedade por uma educação pública, gratuita e de qualidade.

 

 

Leia os relatos das(os) estudantes ouvidas(os) pela ADUA na íntegra aqui. 

 

 

 



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