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  28/04/2014 - por



A rebelião das massas no Brasil – das “diretas já” aos “rolezinhos” a vontade de liberdade e de participação



O povo brasileiro nos últimos cinquenta anos tem criado e vivenciado diversas formas de participação em busca de interferência nos rumos sociais e políticos do país. Mas, as elites nacionais modelaram instituições excludentes e autoritárias, impermeáveis a rupturas e à inclusão de outros grupos sociais. Essa modalidade de organização e gestão de estado parece ser a marca singular da república no Brasil, estruturada sobre uma matriz pré existente desde a colônia e o império. É uma matriz institucional caracterizada por uma apropriação privada pelos que exercem o governo, constituindo uma verdadeira contradição histórica: um estado privativo, exclusivo dos que tem acesso aos cargos nos três poderes: executivo, legislativo e judiciário. Isso articula um apartheid político e social que durante séculos vem se mantendo e se reproduzindo, por diferentes fases da história, amparado por aparelhos legais, mas não mais legítimos, separando os que tem direitos (brancos, ricos ou quase isso) dos sem direitos (negros, pobres ou quase isso).

Nos últimos trinta anos outra mentalidade cívica vem se disseminando entre nós, o povo, os que estamos do lado de cá, nos levando a buscar formas de uma presença efetiva. Mas ainda hoje, o povo nas ruas, o povo se expressando, o povo reivindicando tem sido considerado uma anormalidade, uma ameaça aos governantes. Pois, as elites (políticas, econômicas e midiáticas) não tem uma consciência cívica nacional, não se identificam com o povo, nós, porque o que é bom para eles não é bom para nós e o que é bom pra nós não é bom para eles. Acostumaram a não repartir a cidadania, o poder, os direitos, as oportunidades, o bem estar, a felicidade. Aceitam o que não mexe com o conforto e a segurança do seu domínio, do seu lucro, da sua comodidade, da sua fartura.

Acredito que eles não têm a capacidade de se identificarem com o popular, o que é do povo. Vale lembrar o desastroso artigo de Danuza Leão em que lamenta não poder ser mais única e especial no Brasil afirmando que "ir a Paris e a Nova York perdeu a graça diante do perigo de dar de cara com o porteiro do próprio prédio”. O que para nós é uma maravilha para eles é um contrassenso! Essa é a mentalidade e a posição das elites tupiniquins e seus asseclas mais próximos – uma classe média alta, que se pensa intelectualizada, com acesso a certos privilégios (educação superior, consumo cultural, viagens internacionais...) e que se acha muito.

Foi contra essa situação que as gerações de 1960-70-80 se ergueram com seus protestos e suas utopias, contra a ditadura militar e suas atrocidades. Era uma geração subversiva, intensamente passional e sonhadora. Uma geração que foi ouvida e incorporada quando parte da elite achou conveniente: nas diretas já, enchendo e embelezando as ruas com suas roupas coloridas, sua vontade de liberdade, deslumbrando com seu canto e suas palavras de ordens. Perversamente manipulada pelos senhores da politica que conchavaram por um colégio eleitoral eleito "nós sabemos como”! A geração dos anos 1990, "os caras pintadas”, mais alegre, mais verde e amarelo, acreditando na facilidade de se manifestar sem o peso da Lei de Segurança Nacional, da Polícia Federal (cuja única função era perseguir subversivos) e dos militares. Essa também foi manipulada e escamoteada assim que as elites tiraram o moço "caçador de marajás” que se distanciou do projeto de uma parcela poderosa da mesma elite que o tinha produzido.

Agora, na década de 2010 vimos o ressurgir das mobilizações, que levou muita gente a dizer que "o gigante acordou”, para dizer que o Brasil se levantou de um sono quase eterno... na verdade ele nunca dormiu, porque de diferentes maneiras, seu povo sempre tentou estar acordado. Creio que as décadas anteriores gestaram em nós uma consciência de si, como povo que precisa se tornar uma nação, ter direitos, exercer participação, falar, ser escutado e levado em conta. Entre as gerações que atuaram nesse processo de conscientização está também a geração que construiu o PT, resultado de uma ruptura teórica e política com as teorias clássicas de revolução que pregavam como agente histórico o partido de vanguarda e contra o qual concebemos um partido de massas, acreditando na capacidade do povo de dirigir seu próprio destino. Foi um grande debate que ainda não acabou. Porque o PT ao se constituir como partido elegível e ganhar as eleições, ocupou lugares do estado, os postos de gestão, e se tornou refém deles, ou seja, não mudou a lógica que os organiza, não os desconstruiu, não criou canais de uma efetiva democracia participativa e agora vive batendo boca e disputando espaços com as renovadas velhas elites. Assim, ajudou a criar uma consciência crítica e participativa com a qual não consegue lidar e incorporar.

As gerações dos "20 centavos”, dos "rolezinhos”, dos incêndios e depredações, vivem a ambiguidade de serem "o povo que quer inovar” e, ao mesmo , os "vândalos” que querem destruir. Mais uma vez as elites e seus porta - vozes manipulam o povo – criminalizando-o e aproximando do campo criminoso ou exaltando-o como arautos da ética e da cidadania. Fazem isso para retroagir e desqualificar um processo tímido, mas inegável, na direção de uma nacionalização do país, com ampliação de cidadania. O PT, experimenta neste contexto, o impasse de não conseguir alinhar-se a um processo do qual participou, mas que já não consegue coadunar porque na posição de gestor do poder governamental optou agir para resguardar o que está aí e perdeu a perspectiva da mudança. Enquanto isso, o povo já sabe que pode ser mais do que espectador de uma história, mas sim um agente consciente, autônomo, cuja cidadania não é somente eleger, mas, participar, fazer-se valer. Faltam canais, espaços e acima de tudo a crença e um projeto para todos. Enquanto isso, tanto o crime organizado e as elites tiram vantagens e barbarizam sobre a legítima explosão nas ruas de um povo que quer ser tão somente uma nação – uma comunidade política imaginada e soberana, onde vigore uma base mínima de direitos iguais e justiça para todos/as.

Hoje a minha gente já não anda falando de lado e nem olhando para o chão, mas ainda cantamos os versos de Chico:

"Eu pergunto a você /Onde vai se esconder / Da enorme euforia / Como vai proibir / Quando o galo insistir / Em cantar / Água nova brotando / E a gente se amando / Sem parar” (Apesar de Você, Chico Buarque)

* Maria Dolores de Brito Mota é professora Associada da Universidade Federal do Ceará. Instituto de Cultura e Arte. (Texto publicado originalmente no Adital, no dia 28 de abril de 2014)



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