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Evento ocorreu de 26 a 30 de janeiro na Chácara Abraço Verde, em Manaus
Daisy Melo e Sue Anne Cursino
Queremos uma educação escolar indígena, mas do nosso jeito”. Essa foi afirmação feita em vários momentos por participantes do Encontro de Educação Escolar Indígena do Amazonas 2026, que ocorreu de 26 a 30 de janeiro, na Chácara Abraço Verde, em Manaus. A ADUA apoiou e participou do evento que teve o objetivo de apresentar as propostas elaboradas por Grupos de Trabalhos (GTs), formados a partir de encaminhamentos da edição passada. A Seção Sindical foi representada no encontro pela presidente, professora Ana Lúcia Gomes, e pelo 2° vice-presidente, José Alcimar de Oliveira.
Com tema central “Tecendo consensos, refazendo caminhos: vozes indígenas na construção da educação com o Estado”, o encontro contou na abertura com ritual de defumação de Diakara Dessano, prática ancestral de proteção. Em seguida, a cantora mirim Yara Sateré-Mawé entoou canções de boas-vindas como a “Farinhada”.
“Quem não está disposto a fazer a farinhada não está aqui para participar da educação escolar indígena. A primeira grande lição hoje nos foi dada pela Yara. Não há futuro para a educação do amazonas, para a Universidade Federal do Amazonas, para a Universidade do Estado do Amazonas, se essas instituições não se comprometerem com a educação indígena”, disse Alcimar.
A mesa de abertura foi composta por representantes do Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena (Foreeia), entidade organizadora, da Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam), da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas Makira-E’ta, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entornos (Copime).
“Educação é um direito, mas tem que ser do nosso jeito. Esse é o lema do movimento estudantil que não abre mão de território, saúde e educação. É com esse espírito que estamos aqui para contribuir com os demais movimentos, porque com certeza nós estamos sentindo as dores dentro da universidade”, afirmou o representante da União Plurinacional dos Estudantes Indígenas, Arlindo Baré.
A representante da Apiam, Mariazinha Baré, destacou o papel da entidade no fortalecimento do movimento. “Nós temos uma grande missão. Para atuar na questão de indígena é preciso ter uma causa, é preciso estar dentro de nós enquanto indígena, porque somente dessa forma conseguimos avançar nas políticas do movimento. É importante que nesse encontro, possamos descontruir muitas questões relacionadas à educação. Nós temos uma grande responsabilidade enquanto povos indígenas”.
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ADUA apoiou e participou do encontro realizado pelo movimento indígena
O encontro contou com a participação de cerca de 200 indígenas de Territórios Etnoeducacionais do Amazonas (TEE): Rio Negro, Alto Solimões, Vale do Javari, Médio Solimões, Juruá, Alto Madeira, Baixo Madeira, Médio Madeira, Baixo Amazonas e Yanomami. Entre os(as) participantes estiveram estudantes, professores(as), lideranças indígenas, representantes de organizações indígenas e indigenistas, além de representantes de órgãos municipais, estaduais e federais.
Após a apresentação do grupo Tikuna “Wothimaucu”, que entoou canções em sua língua, ocorreu a palestra do professor e antropólogo, Gersem Baniwa. A apresentação teve como foco explicar o tema do encontro e os principais consensos entre os povos originários.
“Um dos consensos é que a educação escolar indígena é um direito conquistado com a Constituição Federal de 1988. Não foi um presente dos brancos, dos deputados constituintes. Foi arrancado, conquistado pelos povos indígenas. Foram as lutas em Brasília que garantiram a conquista desse direito. Outro consenso é que a educação escolar indígena que nós queremos é a do nosso jeito, do jeito como ensinamos e como tradicionalmente aprendemos”, afirmou Gersem.
Identidade étnica
Os GTs formados a partir da edição de 2025 do Encontro debateram, ao longo do ano passado, propostas sobre Autodeclaração Indígena no âmbito da Educação, Política de Educação Escolar Indígena do Amazonas, Línguas Indígenas, Ensino Médio, Programa de Licenciaturas Interculturais Indígenas (Prolind) e Custo Amazonas.
Um dos resultados dessas discussões nos GTs foi apresentado no Encontro de 2026 por Izabel Munduruku e João Vitor Lisboa Batista com a palestra “Validação da Identidade Étnica no Amazonas - Protocolo Orientador para Autodeclaração e Acesso a Políticas Públicas”. O GT apresentou um documento sujeito à discussão e consulta prévia dos(as) participantes do Encontro.
Durante a exposição foi explicado o atual vácuo normativo sobre o tema que gera três problemas estruturais: subnotificação e incivilidade, burocracia excludente e fraudes e oportunismo. “Os estudantes indígenas são muitas vezes erroneamente registrados como pardos nas escolas por falta de documentos ou medo, e isso acaba impedindo políticas de acolhimento”, explicou Izabel.
Outro ponto destacado foi a mudança de paradigma do fenótipo para o pertencimento em relação à validação. “Deixa de se reconhecer a heteroidentificação fenotípica, baseada na aparência física, para se considerar o pertencimento étnico e a trajetória, que é baseado em vínculos, história e reconhecimento coletivo”, explicou João Vitor. Neste aspecto foi destacado um trecho de um ofício da Funai que diz: “identidade indígena não se concede, se reconhece. E quem reconhece é o povo”.
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Além dos debates, evento contou com oferta de grafismo corporal, técnica feita com tinta de jenipapo e carvão
Construção coletiva
Além de membros da Diretoria da ADUA, docentes sindicalizados(as) estiveram envolvidos(as) tanto na organização do encontro quanto nas discussões que apontaram caminhos para a construção coletiva da Educação Escolar Indígena no Amazonas. “Estamos tratando de projetos de nações. A ideia é construir os documentos e sair daqui com propostas de conscientização sobre o que queremos para as línguas indígenas, o Ensino Médio, as licenciaturas e a educação escolar indígena no estado”, afirmou a docente da Ufam e membro da Diretoria Executiva do Foreeia, Danielle Munduruku.
A pluralidade na participação do encontro afiança a representatividade no debate. “Neste segundo dia, tivemos 416 pessoas credenciadas, representantes de 42 municípios e, pela primeira vez, todas as representações dos territórios etnoeducacionais reunidas em um encontro estadual”, informou Danielle. A docente antecipou a expectativa da organização sobre a consolidação dos trabalhos. “Acreditamos que, no próximo ano, será possível ter dados concretos, como o número de indígenas que ingressaram nas universidades por meio das cotas, os avanços na implementação do Ensino Médio e da política estadual de Educação Escolar Indígena”.
Licenciatura e pedagogia
A discussão sobre os desafios no âmbito das licenciaturas e pedagogias interculturais indígenas foi o foco do terceiro dia. Iniciada com a apresentação de dança da delegação de Tefé, composta por indígenas das etnias Kambeba, Kokama e Tikuna, a programação contou com a palestra “A importância das licenciaturas e pedagogias interculturais indígenas: o que são e porque são necessárias?”, da professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Célia Bettiol, e mediação da docente Ana Paula Diniz.
“A formação dos professores indígenas é essencial para fomentar a qualidade da educação escolar indígena e é uma política que tem inclusive desafios que enfrentamos em relação às políticas do Prolind”, destacou Ana Paula. A formação inicial de professores(as) indígenas é garantida pela Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) 01/2015, que afirma que esta deve ser realizada em cursos específicos de licenciaturas e pedagogias interculturais e, quando for o caso, em outros cursos de licenciatura, programas especiais de formação pedagógica e aproveitamentos de estudos.
Em sua apresentação, Célia expôs a diferenciação entre licenciatura e pedagogia intercultural indígena. A primeira habilita para o exercício da docência nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, de acordo com a área de conhecimento e considerando as diferentes modalidades de ensino, e a segunda para os anos iniciais do Ensino Fundamental, Educação Infantil e Gestão, considerando as diferentes modalidades de ensino.
“Um dos grandes desafios é a atuação dos professores nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Todo o mundo ministra aula de tudo, o que exige um sacrifício grande do professor. Isso acaba se tornando uma dificuldade para a organização. Pensar essas áreas do conhecimento articuladas e específicas não é simples. Digo como formadora que nós ainda estamos aprendendo a fazer”, relatou.
Célia elencou uma série de outros desafios como a falta de formadores(as) suficientes para a abertura de mais turmas. “Além disso, a UEA e a Ufam apresentam problemas financeiros. A federal trabalha com recursos do Prolind. Já a estadual não acessa esses recursos. Nós trabalhamos com o Parfor [Plano nacional de Formação de Professores da Educação Básica] ou via Seduc”, comentou.
Outras problemáticas apontadas são as dificuldades enfrentadas pelos(as) estudantes com o deslocamento, que precisa ser custeado por eles(as); a permanência, uma vez que muitas não tem acesso à bolsa para se manter estudando; o custeio da alimentação, considerando que não há Restaurante Universitário (RU) em todas as localidades; hospedagem e, para as mulheres, o desafio de cuidar dos filhos(as) enquanto se estuda.
Arte indígena
Além das mesas temáticas e apresentações culturais, o encontro contou com outras representações da arte indígena. Brincos, colares, pulseiras, roupas, cuias e outros acessórios foram ofertados no encontro, além do grafismo corporal. A técnica feita com tinta de jenipapo e carvão é desenvolvida por jovens como o estudante de Comunicação, Amadeu Sateré-Mawé, que integra o coletivo Juventude Sateré-Mawé do Amazonas.
“É a primeira vez que participo. Atuo no movimento artístico por meio do grafismo, e considero fundamental estarmos presentes nesse espaço para incluirmos nossas vozes enquanto juventude. Estamos inseridos em ambientes escolares que, muitas vezes, não valorizam nossa cultura. Então, ocupar esse espaço é falar por quem vivencia essa realidade. Isso fortalece o movimento indígena. Iniciei essa trajetória desde criança e, agora, posso mostrar a potência que temos. Considero importante fortalecer também cada um da nova geração”.
Fotos: Daisy Melo/Ascom ADUA
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