
O Estado norte-americano passou das ameaças e agressões pontuais à invasão aberta da Venezuela e sequestro de seu Presidente e esposa. É, ao mesmo tempo, um ato de guerra contra o povo venezuelano e um aviso aos Estados nacionais que não se alinharem totalmente aos interesses das grandes corporações norte-americanas e dos agentes financeiros.
Os países governados por setores democráticos e refratários ao imperialismo escrachado pretendido por Trump, tendem a propor medidas que vão da solução pacífica mediada pela ONU à resistência cívica e militar, mobilizando a sociedade civil e as forças armadas contra a agressão. A Venezuela já se encontrava nessa condição. Os demais países, a exceção da Colômbia, pareciam não acreditar na invasão bárbara.
Não resta dúvida de que os EUA, com esse ato, tornam evidente sua política externa imperial-militar para a América Latina.
Mas não estamos nos anos 1960. Não há sombra dos muros e cortinas da Guerra Fria. Desde os anos 1990, as políticas patrocinadas pelo próprio Império desencadearam novos equacionamentos das relações econômicas e políticas internacionais, muitos dos quais se revelaram problemáticos para os interesses de setores da alta burguesia norte-americana.
A emergência do G20, de blocos econômicos regionais e dos BRICS, por exemplo, para além de tentativas de ajuste à globalização neoliberal, foram se revelando formas de resistência a ela e às crises da ordem neoliberal.
O financiamento da ascensão da extrema direita neofascista foi um dos desdobramentos desse processo; outro foi a difícil formação de frentes de contenção política desses setores. Nesse sentido, as instituições democráticas e os processos eleitorais, com todas suas fragilidades, demonstraram certa capacidade de evitar o ajuste político-institucional aos interesses imperiais. Agora, os que se negam a esse ajuste pleno estão sob ameaça de guerra. Ou seja, não está em causa apenas a ordem institucional democrática, mas os acordos feitos a partir dela. Acordos que, no caso do Brasil, envolvem a China e a Rússia, para ficar em duas grandes potências.
Como elas reagirão?
Cabe lembrar que há cerca de dois anos o Estado norte-americano juntamente com o Estado de Israel, promovem um genocídio do povo palestino em Gaza; que o Estado norte-americano e a União Europeia usaram a Ucrânia para declarar guerra à Rússia; que neste exato momento, o Estado norte-americano ameaça intervir no Irã: e que esse mesmo Estado vem patrocinando guerras híbridas onde quer que os interesses de suas corporações não se tornem o interesse dominante.
Ou seja, os EUA, diante do declínio econômico, buscam reerguer-se através da deflagração de uma guerra mundial.
Quem serão os Aliados na luta contra o novo Eixo?
Marcelo Seráfico é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
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