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Romaria das Águas 2026 - Foto: Fórum das Águas/ Divulgação
"Dos quatro elementos, somente a água pode embalar. É ela o 'elemento embalador'. Este é mais um traço de seu caráter feminino: ela embala como uma mãe. A água leva-nos. A água embala-nos. A água adormece-nos. A água devolve-nos a nossa mãe" (Gaston Bachelard).
01. Neste domingo, 22 de março de 2026, no Dia Mundial da Água, celebramos a mais feminina e a mais primordial das quatro matérias elementares do ser natural, e que nos antecedem a todas e todos. Água, Ar, Terra e Fogo estão na raiz de toda a sabedoria (religiosa, mítica, filosófica) elaborada pelo ser social, e muito anterior aos relatos bíblicos.
02. A Bíblia é herdeira dessa milenar sabedoria. O livro do Génesis, que nos mergulha nos tempos do princípio, registra que o Espírito (Vento de Deus) se agitava sobre as águas. A água é morada do Espírito, dos Espíritos. As águas materializam o Espírito.
03. Se tudo está pleno de Deuses, como escreve Tales de Mileto, é porque a água é a matéria (ontológica e lógica) constitutiva de todo ser natural e social. Água é origem. Água é gênese.
04. Numa paráfrase a Marx, dizer que o ser humano se relaciona com a água é o mesmo que dizer que o ser humano relaciona-se consigo mesmo, pois ele mesmo é água em forma de matéria espiritualizada.
05. Nesta manhã dominical a Amazônia de Manaus, sob sol luminoso, sobre águas do belo (e tão maltratado) rio Negro, movida pela ancestralidade da resistência cabana, promove a Terceira Romaria das Águas, organizada pelas forças sociais que integram o Fórum das Águas. Nossa ADUA - Seção Sindical das Professoras e dos Professores da Universidade Federal do Amazonas é parceira dessa luta.
06. "Que a justiça corra como um rio e a vida floresça em abundância". É a cosigna que anima a luta. Vida acima dos lucros. A água é um bem social comum. Nossos rios não estão à venda. Retire a venda capitalista de seus olhos e liberte sua consciência da jaula ideológica do valor de troca.
07. Manaus, cidade que ainda conserva a resistência da alma indígena, é a capital mais indígena do Brasil e, é preciso dizer, uma cidade deliberadamente anti-indígena. Situada à margem esquerda (única margem social capaz de organizar a luta anticapitalista) do portentoso rio Negro, é da Manaus envenenada pelas águas do poder do capital e pela necrocracia que procedem colapso ambiental e barbárie social. Somente uma governança popular e ecossocialista poderia projetar a Manaus do rio Negro como Pólis Ambiental e Indígena de alcance cosmopolita.
*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado em Educação (1998) e o doutorado em Sociedade e Cultura (2011). É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA - Seção Sindical e filho orgulhoso do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE). Texto destinado urbi et orbi, escrito em Manaus, AM, em 22 de março de 2026, no Dia Mundial da Água.
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