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No último dia do Encontro Estadual de Educação Escolar Indígena do Amazonas de 2026, realizado de 26 a 30 de janeiro na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), lideranças, estudantes, professores(as) e organizações indígenas reafirmaram o compromisso de fortalecer o diálogo com o Estado e consolidar políticas públicas com protagonismo dos povos originários.
Com o tema “Tecendo consensos, refazendo caminhos: vozes na construção da educação com o Estado”, o encontro foi marcado por apresentações culturais, mesas de debate, palestras e diálogo em grupos de trabalho. Ao todo, mais de 400 participantes, de 38 municípios e cerca de 60 povos indígenas, estiveram presentes.
O último dia contou com a fala de representantes institucionais, a apresentação e aprovação dos documentos finais e falas de compromisso para a efetivação das políticas públicas discutidas ao longo da programação.
Os oito Territórios Etnoeducacionais (TEs) do Amazonas estiveram representados por: TE Alto Solimões, John Wytoto; TE Médio Solimões, Mauca Kambeba; TE Alto Madeira e Purus, Cleuto Tenharim; TE Rio Negro, Lúcia Maria Baré; TE Yanomami, Vicente Yanomami; TE Vale do Javari, Ewerton Marubo; TE Baixo e Médio Madeira, Genildo Mura; e TE Baixo Amazonas, Selm Apurinã.
“Precisamos de uma educação específica, diferenciada e intercultural, que valorize nossas línguas e saberes tradicionais e que traga resultados concretos”, afirmou Lúcia Maria Baré, representante do Território Etnoeducacional do Rio Negro.
Entre os temas centrais debatidos estiveram a autodeclaração indígena na educação, políticas afirmativas, preservação das línguas indígenas, ensino médio indígena, Licenciaturas Interculturais Indígenas (Prolind) e participação política.
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Xytara Apurinã, do Baixo Amazonas, destacou a importância do encontro para a construção coletiva das demandas. “Quando nos reunimos, conhecemos as dificuldades uns dos outros e conseguimos, no consenso, levar nossas demandas para o documento final”, afirmou. Ela também ressaltou que uma das principais reivindicações é a construção de escolas nos territórios, respeitando as especificidades de cada povo.
O mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Ufam, Odorico Xamatari Hayata Yanomami, chamou atenção para a necessidade de ampliação do ensino médio nas comunidades e da formação de professores indígenas. “Sem ensino médio completo não é possível acessar cursos de formação docente ou a universidade. Precisamos de cursos e da abertura de vagas para os Yanomami”, reivindicou.
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A representante do movimento estudantil, Izabel Cristine Silva dos Santos, do Meiam, apontou a necessidade de estrutura adequada para estudantes indígenas com filhos. “É muito bonito ter as crianças e os professores indígenas nas universidades, mas a gente não tem um espaço assegurado e com a nossa cara. As crianças precisam estar correndo pelos corredores porque não tem onde ficar. E quando a gente sai das nossas aldeias as crianças vão junto, junto com suas mães e junto com seus pais, e esses estudantes que saem para formação dos professores indígenas eles não têm onde deixar suas crianças. E a gente precisa que a Ufam nos trate respeitando nossas especificidades”, destacou.
Durante a palestra “Do território ao papel: caminhos para o financiamento da educação escolar indígena”, o pesquisador Paulo Shinji, do Imaginable Futures, ressaltou a disparidade entre o financiamento da educação não indígena e da educação escolar indígena. Segundo ele, é necessário transformar o modelo de financiamento para fortalecer iniciativas que partem das próprias comunidades. “Essa disparidade faz com entre uma educação muito assimiladora dentro dos territórios e a gente que mobilizar para transformar o financiamento em financiamento para o movimento de educação escolar indígena, financiando assim uma diversidade, uma educação que vem desde a comunidade e fortalecer, pois hoje esse finamento é feito pelas próprias famílias e comunidades”.
Entrega do documento final
Participaram do encerramento a reitora da Ufam, professora Tanara Lauschner, que destacou a construção do campus de São Gabriel da Cachoeira e a importância da interiorização do ensino; o reitor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), professor Jaime Cavalcante Alves; a vice-reitora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), professora Katia Couceiro; além de representantes da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério da Educação (MEC).

O documento final, entregue às autoridades presentes, reúne propostas estratégicas para a educação escolar indígena no contexto estadual, com destaque para o financiamento das políticas públicas, a formação de professores indígenas , em nível de licenciatura e bacharelado, e a concessão de bolsas para estudantes.
O doutor em Educação Ytanajé Cardoso, do povo Munduruku, explicou que também foi discutida a proposta de uma lei estadual para dar amparo legal às políticas de educação escolar indígena no Amazonas. Segundo ele, o texto foi debatido em grupos de trabalho e aprovado com ampla participação de jovens, professores(as) e representantes dos territórios etnoeducacionais. A proposta busca fortalecer a política dos Territórios Etnoeducacionais, implementada nacionalmente, garantindo monitoramento e maior controle social das ações educacionais voltadas aos povos indígenas.
Participação da ADUA
A ADUA esteve presente durante todos os dias do encontro, acompanhando e apoiando o processo coletivo.
“Essa questão da educação escolar indígena sempre foi uma preocupação do ANDES-SN e da ADUA. É fundamental ouvir os indígenas sobre como a educação está acontecendo em seus territórios. Temos mais ouvido do que falado, atentos às demandas e refletindo sobre como podemos contribuir diante de uma realidade complexa e desafiadora”, afirmou Ana Lúcia.

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